Dinâmicas da fauna

História dos carnívoros em Portugal

Cinco séculos de extinções, declínios, regressos e novas chegadas: como a fauna portuguesa de mamíferos carnívoros se transformou ao longo do tempo.

A composição da fauna portuguesa de carnívoros mudou profundamente desde os tempos históricos. Espécies que outrora ocupavam todo o território desapareceram, outras viram a sua distribuição reduzida a fragmentos isolados, uma regressou através de um programa de reintrodução, e duas espécies novas chegaram da América do Norte. Esta página apresenta os principais marcos dessa transformação.

Espécies extintas

Urso‑pardo

O urso‑pardo (Ursus arctos) foi a primeira grande perda da fauna portuguesa de mamíferos carnívoros. A população reprodutora terá colapsado por volta do século XVII, em consequência sobretudo da destruição da floresta autóctone, e o último exemplar abatido em território nacional foi morto a 2 de dezembro de 1843, na serra da Mourela, no Gerês.

A história, no entanto, não termina aí. Em maio de 2019, o ICNF confirmou a presença de um exemplar no Parque Natural de Montesinho, em Bragança. Foi identificado por pegadas e pelos indícios deixados em colmeias atacadas a cerca de 700 metros da fronteira espanhola. Foi o primeiro registo fiável da espécie em Portugal em quase dois séculos, evidência de incursões pontuais a partir da Cordilheira Cantábrica.

Regresso à natureza

Lince‑ibérico

O lince‑ibérico (Lynx pardinus) terá deixado de reproduzir-se em estado selvagem em Portugal nas últimas décadas do século XX, com os últimos núcleos a desaparecerem na transição para o século XXI. A espécie foi durante anos considerada o felídeo mais ameaçado do mundo.

A inversão dessa trajetória começou em 2014–2015, com o programa de reintrodução no Parque Natural do Vale do Guadiana, no âmbito do projeto europeu LIFE Iberlince, que depois continuou através do LIFE LynxConnect. A 6 de maio de 2016 nasceu no Vale do Guadiana a primeira ninhada de lince‑ibérico em estado selvagem em Portugal em várias décadas. A população portuguesa cresceu desde então de forma sustentada: cerca de 200 indivíduos em 2021, 291 em 2023, e 354 em 2024. Em 2024 a IUCN reclassificou a espécie de Em Perigo para Vulnerável, reconhecendo a recuperação das últimas duas décadas.

Distribuições reduzidas

Lobo‑ibérico

O lobo‑ibérico (Canis lupus signatus) ocupa hoje em Portugal cerca de 20% da sua área de distribuição original. O processo de retração tornou-se evidente a partir da década de 1940 e acentuou-se drasticamente nos anos 70 do século XX. A população nacional encontra-se atualmente dividida em duas subpopulações pelo rio Douro: a principal, a norte (Bragança, Vila Real e partes do Porto, Viana do Castelo e Braga); e uma muito mais reduzida e isolada a sul (parte dos distritos de Aveiro, Viseu e Guarda). A antiga população do Sado, no Alentejo, extinguiu-se no início do século XXI. Era geneticamente isolada e demasiado pequena para se manter viável.

Novas chegadas

Em paralelo às perdas, duas espécies de carnívoros chegaram ao território nacional nas últimas décadas, ambas a partir de Espanha e ambas classificadas como invasoras ao abrigo do Regulamento (UE) n.º 1143/2014.

Visão‑americano

O visão‑americano (Neogale vison) é originário da América do Norte e estabeleceu-se em Portugal a partir de quintas de criação de pele na vizinha Espanha. Um estudo dedicado à espécie em Portugal, publicado em 2014, demonstrou já uma presença alargada no norte do país, em todas as principais bacias hidrográficas do Minho, com tendência clara de expansão para sul.

Guaxinim

A presença do guaxinim (Procyon lotor) em Portugal é mais recente e ainda em expansão. Originário também da América do Norte, integra a lista da União Europeia de espécies exóticas invasoras preocupantes; observações no campo devem ser comunicadas ao ICNF.

Para continuar a ler

  • Catálogo de espécies: fichas individuais com habitat, dieta e estatuto de conservação.
  • Notícias: registo cronológico dos marcos recentes (recenseamentos, nascimentos, eventos).
  • Perguntas frequentes: respostas concisas a dúvidas comuns sobre estas espécies.
  • Documentação: Livro Vermelho, atlas, planos de ação e legislação de referência.